terça-feira, 21 de dezembro de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

Crónica Altitude (22 Junho 2010)

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Mas o Tejo não é mais bel que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é rio que corre pela minha aldeia.
- O Rio que corre pela minha aldeia chama-se Noéme. Está sujo; não tem vida- 
Nunca ninguém pensou no que há para além do rio da minha aldeia.
O Rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
- Quem polui nunca pensou no que está para além do rio da minha aldeia. Se pensasse não o fazia-
Vem sentar-te comigo à beira do rio
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas.
Depois pensemos que a vida passa e não fica.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus pais, tão novos no passado!
E o menino nascia a bordo de um navio
Que ficava à noite no cais iluminado...
- Não passam navios no Noéme. 
À sua volta, só os guarda-rios, as rãs e os peixes quando os havia
Mas tem moinhos e pontões
E há anos que seca no estio - 
O rio não era rio
Nem corria. E a própria morte
Era um problema de estilo.
- A morte no Noéme não é um problema de estilo.
Acontece todos os dias. Impunemente. -



Crónica transmitida na Rádio Altitude no dia 22 de Junho de 2010.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Crónica Altitude (08 de Junho 2010)

Na semana passada apanhei o comboio regional no apeadeiro do Rochoso com destino a Lisboa. O apeadeiro do Rochoso foi inaugurado a 29 de Abril de 1924 por influência e insistência do Dr. Alberto Diniz da Fonseca que convenceu os responsáveis dos comboios da época da viabilidade e necessidade daquela infra-estrutura. Para isso organizou um retiro da Liga dos Servos de Jesus na aldeia e naquele dia, o comboio parou e dezenas de pessoas desceram. Estava provada a necessidade do apeadeiro! Em finais da década de 80 a CP tentou fechá-lo alegando que não dava lucro. O povo uniu-se, cortou a linha e o comboio só passou porque vinha escoltado pela GNR. No entanto a batalha foi ganha pois, embora com menos paragens, o comboio continua a parar. Acredito que não dê lucro; mas tem um inestimável valor social e esta é a lição que em tempos de austeridade alguns merceeiros que gerem o bem público devem reter. E também que o poder do bastão quase sempre acaba por sucumbir ao poder da razão.

Nesse mesmo fim-de-semana dei uma volta pelos campos do Rochoso. Finalmente tinha chegado a Primavera e a Natureza manifestava-se: de um lado do caminho saltava um coelho; do outro um casal de perdizes. As maias cobriam de amarelo a paisagem e o centeio ainda verde despontava. Pouco centeio infelizmente… que os braços que o ceifavam e malhavam estão já velhos e sem força. Só à volta do Noéme não existe vida. Pressente-se ao longe que ali corre um rio, mas nada se ouve, nada se vê à sua volta.

Ontem poluíram-nos o rio; amanhã se puderem os merceeiros deste tempo retirar-nos-ão mais qualquer coisa. Sempre sob o pretexto que há pouca gente, que não dá lucro… Hoje lutamos por um rio que não soubemos defender a seu tempo. Amanhã será por outra coisa qualquer. Mas as nossas aldeias não deixarão de existir sem luta.

Dizia Monsenhor Cónego José Lourenço Pires, antigo director do Seminário do Fundão e meu conterrâneo: “É de duvidar do carácter de uma pessoa que renega ou diz mal da sua terra.” E eu acrescento: E também dos que nada fazem para a defender.


Crónica transmitida na Rádio Altitude no dia 08 de Junho de 2010.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Crónica Altitude (25 de Maio 2010)

Houve um tempo em que as leis não eram escritas e a palavra substituía qualquer tratado assinado. Nesse mesmo tempo, a riqueza das nossas aldeias media-se em alqueires de centeio ou almudes de vinho. Dizia-se então: "Pão e vinho escolhem sempre o melhor caminho". Significava esta expressão que na eventualidade dos caminhos não estarem transitáveis era permitido aos agricultores abrirem novas vias nem que para isso fosse necessário entrar em propriedades privadas. Era um tempo em que os caminhos eram estreitos e o transporte feito em carros de boi.
Em vésperas de uma recente deslocação à Guarda, despedia-se de mim uma amiga dizendo: "Diverte-te e come bem!". E pensando bem que viagens pelos sabores são estas.
Da sopa de grão feita em panela de ferro à batata cozida da região regada com azeite do Mondego; do pão de centeio do Sabugueiro ao queijo de ovelha da Serra; dos enchidos da Castanheira ao cabrito assado com ervas do campo. Tudo acompanhado de uma salada de agriões apanhada numa qualquer presa à beira do caminho e de um tinto da Adega de Figueira. E mais uns míscaros estrugidos...e para a sobremesa um arroz doce.
Aos fundamentalistas da nutrição que porventura estejam neste momento a excomungar-me, recomendo após a refeição uma visita ao Castro do Jarmelho ou a descida do Noéme até ao Rochoso. A pé evidentemente! Que nunca fez mal a ninguém...
E como "nem só de pão vive o homem", à noite deve-se assistir a um espectáculo no TMG (que os há para todos os gostos e sempre de excelente qualidade).
"Pão, Vinho.... e Cultura! escolhem sempre o melhor caminho". E o melhor caminho é o que nos traz à Guarda.

Crónica transmitida na Rádio Altitude no dia 25 de Maio de 2010.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Crónica Altitude (11 de Maio 2010)

Amanhã, 12 de Maio, passará um ano sobre o primeiro texto publicado no blogue "Crónicas do Noéme" de que sou autor. Foi o primeiro texto, mas não foi o início da luta. Esta tinha começado um ano antes, quando numa manhã chuvosa de Abril, um grupo de cidadãos das aldeias banhadas pelo Noéme deixaram o conforto domingueiro e entre a Guarda e o Rochoso, caminharam ao longo do Rio.
Conseguimos trazer a poluição do rio para a ordem do dia e os diversos órgãos de comunicação social trataram o tema. Voltámos a despertar um sentido de pertença que andava adormecido. Recuperámos memórias antigas.
Durante este ano pudemos ouvir os poluidores afirmarem na TV que poluem; responsáveis afirmarem que a poluição é legal. Foram publicadas fotos chocantes do crime, mas também fotos de grande beleza que nos dão ânimo para continuar. Quero agradecer a todos os que fizeram comentários, participaram na discussão ou enviaram palavras de incentivo.
O propósito de termos um rio despoluído não foi conseguido. E por isso vamos continuar esta luta sem vacilar. As gerações futuras merecem que lhes entreguemos um rio limpo.
Este assunto foi motivo de debate nas últimas eleições autárquicas. Ganhou a lista encabeçada pelo engenheiro Joaquim Valente. Em Novembro de 2009 prometeu que o problema ficaria resolvido durante o primeiro semestre de 2010.
Estamos em Maio. Caminhamos a passos largos para a primeira promessa não cumprida do actual executivo.
Continua a morrer o Noéme.
Continuam a perder as suas gentes.

Crónica transmitida na Rádio Altitude no dia 11 de Maio de 2010 e disponível aqui

sábado, 1 de maio de 2010

Crónica Altitude (27 de Abril 2010)

Entrei pela primeira vez no site Pordata.pt, a base de dados do Portugal contemporâneo cujo responsável é o sociólogo António Barreto. É uma ferramenta de grande utilidade para investigadores ou simples curiosos como é o caso.
Olhei para os números da população e os índices que nos são apresentados. O índice de envelhecimento em 2001 era de 102,2%; em 1960 era de 27%. A menos que algo tenha mudado nestes 9 anos estamos mais velhos. Em 2003 tinham saído do país 27000 pessoas, valores ainda longe dos 120000 emigrantes da década de 60. No dia em que consultei o site tinha havido mais 6 óbitos que nascimentos (tendência confirmada em 2010 com um saldo negativo de 700 indivíduos).
Penso em muitas aldeias do nosso concelho. Preocupa-me que aldeias que no passado tiveram mais de 1000 habitantes tenham hoje um quinto dessa população. Preocupa-me ainda mais que este já sintomático valor não seja estável e continue a descer. Daqui por umas décadas, se não se inverter a tendência, existirão aldeias fantasma no nosso concelho. Aldeias onde só haverá pedras; onde os monumentos deixarão de o ser por não haver quem cuide deles.
Precisamos de um novo repovoamento. De uma nova centralidade. De riqueza.
Em finais do século XIX, quando o comboio chegou, muitos enriqueceram no transporte das pedras nos carros de bois. A agricultura deu trabalho a muita gente. Por todo o lado havia artesãos que vendiam os seus produtos nos mercados. Depois foi o contrabando e a emigração.
Hoje é preciso re-inventar as nossas aldeias. Valorizar os seus recursos. Atrair pessoas.
Compreender o passado para enfrentar o futuro.
Dizia há dias na rádio um escritor colombiano:
"A imaginação e a memória são a mesma coisa." E acrescentava: "A imaginação não é mais do que má memória".


Crónica transmitida na Rádio Altitude no dia 27 de Abril de 2010 e disponível aqui




terça-feira, 13 de abril de 2010

Crónica Altitude (13 de Abril 2010)

Permitam-me que vos fale de um Plátano.
Quem chega ao Rochoso vindo da Guarda é imediatamente abraçado por este enorme monumento natural. Um abraço de boas-vindas, que o Rochoso trata bem os seus visitantes.
Às comemorações do "Dia Mundial da Árvore" juntaram-se este ano as comemorações do Centenário da República.
A então chamada "Festa da Árvore" foi uma manifestação cívico-pedagógica muito incentivada pelo novo regime com o objectivo de promover os valores ambientais, da cidadania e do ensino.
Pode ler-se o seguinte texto no jornal "O Combate" de 1913: "O Povo Português associando-se com entusiasmo à Festa da Árvore vai provar que ao fazer uma revolução não quis simplesmente mudar de instituições políticas, mas de hábitos e costumes, empregando todos os meios para a sua regeneração social; e o professor tratando de incutir no ânimo dos seus alunos o culto da Árvore mostrará que considera a Educação um complemento indispensável da Instrução".
Sempre ouvi contar que o plátano do Rochoso tinha sido plantado pelos Republicanos da aldeia imediatamente a seguir à revolução. Também sabia que o ensino na povoação tinha grandes tradições.
Confirmei a data do seu nascimento - 01 de Dezembro de 1910 - no seguinte depoimento publicado no jornal "A Guarda":
"Era eu menino e ainda hoje me recordo com emoção do entusiasmo com que o nosso bondoso professor (Francisco António Sanches) preparou a Festa da Árvore. E do ardor juvenil com que a plantámos cantando-lhe hinos e recitando poesias. O professor explicou-nos o significado da plantação da Árvore do Renascimento como símbolo do Portugal renovado".
Desde a Revolução Francesa que a árvore é tida como símbolo da Liberdade. Há 100 anos apelava-se aos valores ambientais que hoje desprezamos. O gigantesco tronco do plátano do Rochoso é um pilar forte da Cidadania. Os seus ramos, braços envolventes.

Crónica transmitida na Rádio Altitude no dia 13 de Abril de 2010 e disponível  aqui